Especial outubro rosa: a recuperação da autoestima após o câncer de mama

Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), vinculado ao Ministério da Saúde, o câncer de mama é o tipo de tumor que mais afetou as mulheres no Brasil, em 2020. Só no ano passado foram notificados mais de 66 mil novos casos, o que soma 29,7% dos casos em mulheres brasileiras.

Por conta dos números expressivos, em todo mundo, o mês de outubro foi escolhido como o mês internacional de conscientização para o controle do câncer de mama. Ele foi criado no início da década de 1990 pela Fundação Susan G. Komen for the Cure e assim nasceu o movimento de Outubro Rosa.

Além dos dados divulgados, existem nomes, histórias e sonhos. As vidas dessas mulheres mudam e se cruzam das maneiras mais inusitadas. A retirada da mama é um procedimento necessário em alguns casos, mas ele mexe muito com a autoestima e a saúde mental das pacientes, mas há profissionais que auxiliam nessa retomada da autoestima, como os tatuadores.

História, diagnóstico e tratamento

 

“Eu sempre fui uma pessoa bastante saudável, então tudo isso foi uma surpresa para mim”, conta Carla Isabel Areias Chaves, 47, que lutou contra o câncer de mama. “Meu me coloquei em posição de ‘se aconteceu e agora tenho que ir para cima e resolver, tem solução, não vou entrar em depressão’, sempre fui muito positiva.”

Carla conta que recebeu o diagnóstico aos 45 anos, durante uma consulta de rotina. “A médica detectou algo fora do normal e ela disse que tinha que fazer um exame mais profundo. Eu sempre acreditei que seria nada, algo normal, tudo menos câncer, só depois do último exame eu caí em mim, foi uma mistura de medo, tristeza e preocupação”, relembra.

O otimismo a acompanhou pelos tratamentos radioterápicos, quimioterápicos e pela mastectomia. Ela também conta que o fato de ter um filho pequeno a deixou mais assustada e mais motivada a lutar e continuar.

Mastectomia, autoestima e procedimentos estéticos

 A quimioterapia pode causar diversos efeitos colaterais, entre eles a queda de cabelo, algo que Carla enfrentou. “Sempre fui muito vaidosa, não exageradamente, mas sempre me cuidei e fui apegada ao meu cabelo”, conta. “Tive que cortar bem curtinho e aos poucos fui ficando com a aparência de mais doente, fui perdendo cílios e sobrancelhas, mas o pessoal de onde eu fiz o tratamento me ajudou muito, eles nos ensinaram a fazer maquiagem e tal.”

De dois a três meses após a quimioterapia o cabelo começa a crescer, mas outras coisas continuam. A mastectomia pode retirar a mama totalmente ou partes dela e as vezes é necessário realizar uma reconstrução, mas não fica perfeito, por isso existem tatuadores especializados em reconstrução de aréolas.

O câncer de mama pode ser detectado em fases iniciais, o que aumenta a possibilidade de tratamentos menos agressivos, mas as vezes a realização de uma mastectomia, a retirada parcial ou total da mama, é necessária.

“Não é muito comum tatuadores trabalharam com essa técnica, poque ela não é uma técnica fácil”, conta Juliana Vano, tatuadora do estúdio Elastattoo em São Paulo. “Quando eu descobri o curso de aréolas, de cara me despertou algo, foi isso que eu quis fazer e não cobro nada pelo procedimento.”

Juliana conta que não há um limite de tamanho e que a aréola pode ser 100% reconstruída, mas é necessário ter um intervalo de um ano desde a última cirurgia. “É um procedimento que mexe muito com a autoestima da mulher, essa parte do corpo representa muito a feminilidade e muitas delas se sentem mutiladas. Não é só um detalhe, é algo muito importante”, conta a tatuadora.

A Carla foi uma das clientes da Juliana e suas histórias se cruzaram nesse ano de 2021. “Eu encontrei a Juliana pesquisando pelas redes sociais, me chamou a atenção a forma que ela trabalha e como se dedicava a isso. Eu já tinha feito a mastectomia há dois anos e pensei em fazer a tatuagem, foi uma maneira de me sentir mais completa.”

Vida, recuperação da autoestima e conselhos

 Essa reconstrução é um ato de amor próprio, pelas palavras da Carla, que está caminhando para sua última sessão de quimioterapia, ela define como: um ato de carinho com si mesma. “Durante o tratamento eu não me senti feminina, não me senti atraente. Porém, meses depois, tudo começou a mudar, quando o cabelo começou a crescer, mais bonito e diferente, as pessoas começaram a me elogiar e me notar, agora me sinto renascida, como uma fênix”, diz com bom humor.

A tatuadora conta que cada pessoa reage de um jeito, algumas encaram tudo com leveza e outras nem tanto, mas é quase unânime, todo procedimento de restauração é emocionante. “É muito emocionante, muitas vezes elas choram quando o procedimento termina, outras choram durante, mas do começo ao fim é algo que mexe com o emocional, eu fico emocionada igual a elas.”

“Sabe o que eu diria para quem está passando por isso?”, pergunta Carla, “eu diria para não desistir, o diagnóstico de câncer de mama não é o fim, muitas vezes é o começo de uma nova fase, as vezes sua vida muda até para melhor, porque é um aprendizado. Se a pessoa está passando por isso, ela já é forte, sempre há esperança e ela não deve ser perdida nunca”.

Por: Carlos Damascena Becerene