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Livros na prisão mudam a forma de pensar e de agir - LS Nogueira

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Livros na prisão mudam a forma de pensar e de agir

 

Parece um paradoxo, e é. Em tempos de quedas insistentes na venda de livros, fechamento de livrarias e recuperação judicial de grandes redes varejistas, a leitura literária tese revelado, nos dias atuais, um caminho consistente, simples e econômico para mudar leitores e o mundo ao seu redor.

Em que pesem a precariedade e a insuficiência da rede de bibliotecas públicas e o baixo índice de leitura (segundo Retratos da Leitura no Brasil, do Ibope/Instituto Pró-Livro, são lidos no país 4,97 livros por ano, bem abaixo dos países mais leitores), a quantidade de projetos de leitura de iniciativa de ONGs e voluntários nunca foi tão alta. E, sobretudo, as histórias de transformação, que se multiplicam por toda parte.

As práticas sociais de leitura atingem de menores em situação de vulnerabilidade a idosos e recém-alfabetizados, além, claro, de jovens e adultos sem acesso a livros, um dos maiores responsáveis pela não leitura — outro, fora o desinteresse, é a falta de habilidade, ou seja, o analfabetismo absoluto e o funcional.

Um grupo que ganha notoriedade é o de pessoas privadas de liberdade (730 mil adultos em 1.400 presídios), segmento em que os projetos sociais de leitura crescem em quantidade e qualidade. Em novembro, a Jornada da Leitura no Cárcere, feita com financiamento coletivo, vai mostrar e discutir os principais deles.

Alguns são longevos, como o Clube de Leitura Palavra Mágica em Presídios, desenvolvido há dez anos pelo Observatório do Livro e da Leitura com a Funap (Fundação “Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel”). Pelos 17 clubes implantados em penitenciárias do estado de São Paulo, já passaram 8.000 detentos, e os bons resultados têm inspirado outras ações.

Eles leem um livro por mês, duas vezes e meia a média nacional. E as boas notícias não param por aí. Entre os membros dos clubes, esse número pode chegar a quatro por mês, ou estratosféricos 50 livros por ano, alto demais até para os melhores padrões mundiais! Os resultados são facilmente percebidos. Além do entretenimento cultural de qualidade — são bons livros, e a escolha se dá pelo voto —, a leitura literária no cárcere mexe com esses leitores de várias formas, a começar pela ampliação e melhoria do vocabulário.

Mais importante, contudo, é o estímulo à reflexão, a expressão de sentimentos e, especialmente, o aprendizado que se dá a partir das histórias das personagens. Afinal, se aprender com os tropeços é saudável, fazer isso com os erros alheios é muito mais sábio. Durante esses anos, tenho visto, nas minhas idas às prisões, homens e mulheres condenados que mudaram a forma de pensar e de agir, reconquistaram a dignidade que julgavam perdida e, principalmente, a esperança e uma nova perspectiva para a vida fora das grades.

E tudo, como dizem, graças, literalmente, aos livros e às dinâmicas de leitura denominadas biblioterapia — ou, como o próprio nome diz, terapia pelos livros.

Galeno Amorim
Presidente do Observatório do Livro e da Leitura e ex-presidente da Biblioteca Nacional e do Cerlalc/Unesco (Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e no Caribe) 

 

Fonte: Folha de São Paulo